A Neide é uma pessoa amável. Ela trabalha aqui em casa desde que os meus pais casaram. Cuida de todos aqui como se fosse nossa avó. Mas às vezes ela perde a noção dos seus atos.
Numa dessas, ela jogou fora a minha coleção de pontas de lápis que quase completavam uma caixa de sapatos. Quando cheguei em casa, junto com um colega, e fui mostrar a coleção não a encontrei, perguntei: — Neide, cadê a minha caixa de pontas de lápis? Ela resmungou comigo, disse que aquilo não passava de lixo e me mandou fazer os exercícios da escola.
Consegue entender o que aconteceu? Pensa no carro de Felipe Massa furando o pneu na reta final da corrida que daria o título. Pior, pensa na Joana, aquela colega linda que eu tenho, gostando de outro cara na escola.
Será que ela gosta de alguém? Uma vez eu estava conversando com ela, conseguindo até arrancar alguns sorrisos mas aconteceu o pior, o Lucas chegou atrás de mim e puxou a minha calça. A Joana viu a minha cueca com o símbolo do Grêmio na frente; ela disse que o pai dela é colorado e não gosta que ela ande com gremistas.
Fiquei arrasado, coloquei a calça no lugar e fui até a minha mochila buscar a mamadeira com leite. Como é difícil perder o amor da nossa vida por causa do futebol. Ela disse que só voltaria a conversar comigo se eu me tornasse colorado. Que absurdo! Onde está o caráter de um homem de 10 anos que passa a torcer pelo rival por causa do amor da sua vida? E o amor pelo clube de futebol, onde fica? E tudo o que a cueca do Grêmio representa pra mim? Preferi ficar com a minha mamadeira especialmente preparada pela Neide. Desconfio que ela já trabalhou em bares, prepara uma bebida com ninguém.
Assim como o Felipe Massa volta a correr no ano seguinte, eu voltei a fazer a minha coleção de lápis, dessa vez em um caixa transparente. Também fiz uma terrível ameaça à Neide. Se a minha coleção for novamente para o lixo, nunca mais seco a louça para ela.
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